Introdução à Economia Para Mário Ferreira dos Santos

Introdução:

A filosofia para o Kant divide-se em três partes: lógica, ética e física (basicamente, ele concorda com a divisão da filosofia na antiguidade). A partir daí, Kant cria subdivisões. A ética divide-se em antropologia prática (sua parte a posteriori) e metafísica dos costumes (sua parte a priori); a física divide-se em física (sua parte a posteriori) e metafísica da natureza (sua parte a priori); já a lógica é diferente, pois ela sempre é a priori, embora seu objeto de análise mude: a lógica é o estudo das regras do pensar em geral, enquanto a filosofia transcendental é o estudo das regras do pensar puro (obs: eu e o Haslley discutimos sobre ser filosofia transcendental (que eu considero a definição correta) ou lógica transcendental).

Essa divisão que o Kant faz é de suma importância para compreender o pensamento do MFS. Ele também faz esse dualismo entre a priori e a posteriori nas ciências, como sua análise do generalismo e especialismo. O generalismo trata da ontologia, estudando a essência; já o especialismo trata do contingentismo, estudando a matéria. O MFS faz outro dualismo na sua filosofia: o concretismo e o abstracionismo, ou em outras palavras, a filosofia concreta e a filosofia da crise. Na obra Filosofia da Crise, MFS explica que Santo Tomás de Aquino considerava que “escolher entre” era o passo primordial da análise; todavia, a crise (crisis) na sua visão significa separação, abstração. O contrário é a união, a ligação, ou seja, a concreção. Para concretar um conhecimento, é necessário fazer ligações ontológicas dele com outros conhecimentos, como a geometria enquanto estrutura de gênero é o estudo quantitativo dos corpos, e concreciona-se com a cosmologia que é em sua estrutura de gênero o estudo dos corpos em geral.

Logo, a primeira divisão da economia é sua parte concreta e abstrata. Uma verdadeira ciência econômica (ou Economia Política, o MFS adora usar esse termo) consiste na concreção, ou seja, ligar os factos econômicos com fatos sociais, antropológicos, políticos, jurídicos etc. Tomar a economia como ciência de uma forma separada dessas outras ciências é abstraí-la, tornando seu conhecimento vago. Tanto o é, para MFS, que ele crítica as concepções mecânicas e orgânicas da análise econômica. A partir da divisão da economia em “economia concreta” e “economia abstrata” (termos por mim criados para facilitar o entendimento), MFS expõe seu outro dualismo, de generalismo e especialismo: há na economia sua parte invariável, universal e necessária (economia pura) e sua parte contingente, material, histórica, empírica etc (economia aplicada).

Objeto:

O fato econômico. É classificado como ato econômico a ação legítima para aquisição de meios para satisfazer os fins dos indivíduos. O ser humano necessita, em primeira análise, satisfazer suas necessidades biológicas. O ser humano pode tanto adquirir recursos externos, consistindo tal processo em anabolismo, quanto pode perder recursos internos, consistindo tal processo em catabolismo; e, ambos em conjunto formam o metabolismo. Por necessidade biológica o ser humano necessidade de certos objetos (os quais dá-se o nome de bens) e, não apenas por necessidade biológica, mas também sócio-cultural, como veremos a diante. O fato econômico pressupõe uma mínima racionalidade para ser considerado; logo, ações coercitivas como assaltos, furtos etc não são classificadas como ato econômico.

Método:

Mário Ferreira dos Santos afirma que os resultados da análise econômica depende da concepção do método. Ele então distingue os três métodos existentes: 1) concepções mecanicistas, na qual o ato econômico é estudado da forma como estuda-se as a Lógica Formal, Matemática e Estatística, sendo seus termos retirados da mecânica, e tem como exemplos os economistas Stanley Jevons, Vilfredo Pareto etc; 2) concepções organicistas, na qual o ato econômico é analisado como se o processo econômico num todo agisse de forma como um organismo independente e complexo, sendo seus termos retirados da biologia, e seus exemplos de economistas são Alfred Marshall, Robertus etc; e por fim, 3) a concepção humana: tal não apresenta os vícios excludentes das duas concepções anteriores, mas sim apresenta uma metodologia rigorosa, usando tanto da análise mecânica quando da orgânica, e indo além, incluindo as demais ciências como sociologia, história, antropologia etc em sua análise para, finalmente, concrecionar (fazer ligações) a análise econômica.

Nota: o que é valor? Existem duas formas de juízos no tocante à consideração de um objeto, 1) juízo de existência, o qual descreve o objeto, e 2) juízo de valor, no qual é acrescentado uma ou mais características, mas sem nada mudar no objeto. A área que estuda os valores é chamada de axiologia. A existência dos valores pode ser analisada de forma a considerar que o valor existe em uma realidade independente do ser humano, existindo objetivamente (doutrina platônica), pode considerar o valor como sendo relativo ao ser humano que o da, sem depender do objeto (doutrina nominalista), e, por fim, pode ser considerar o valor como existente na relação entre ser-objeto, onde há uma ligação objetiva entre o ser humano e o objeto, mas com uma mínima relativização, onde o ser humano dita a ligação (doutrina de Scheller). A última doutrina é a concreta, e é nela que Mário Ferreira dos Santos baseia-se.

Da Economia Pura e Economia Aplicada

A ciência econômica divide-se para Mário Ferreira dos Santos, como já dito na introdução, em economia pura e economia aplicada. A primeira baseia-se conhecimentos universais e necessários a todos os casos; já a segunda, baseia-se em conhecimentos relativos a história, cultura, legislação etc, sendo contingente. Para MFS, o conhecimento empírico dos fatos econômicos é um meio para o fim de tornar a economia em uma ciência; e, para ele, o erro da Escola Austríaca foi desprezar os meios pelo fim, enquanto o erro da Escola Historicista foi confundir ambos.

Da indução e Dedução

Mário Ferreira dos Santos, como o concretista mais sólido ao meu ver, nos expõe a ideia que nenhum juízo acerca da economia é de fato puramente dedutivo ou puramente indutivo. Pode-se, a partir de princípios gerais explicar um caso específico, como utilizar da lei da oferta e da procura para explicar um caso de aumento ou baixa dos preços ou demanda; mas também pode-se, a partir de comparações e estudos estatísticos, matemáticos etc, chegar a um nexo-causal como característica dos fatos econômicos em questão. Mas, nunca um juízo é puramente indutivo ou dedutivo, visto que, para sua própria acepção ser necessário ao menos uma influência mínima de um no outro.

Conclusão:

Pode-se inferir, baseando-se no conteúdo até então dito do autor que, primeiro, uma análise não apenas econômica, mas sim de qualquer ciência deve-se basear na concreção, que é a ligação ontológica entre os conhecimentos; segundo, uma análise abstrata é desconexa ao todo complexo do objeto de análise, embora possa ser utilizada como meio, como modelo para análises mais complexas posteriores; terceiro, a Economia Política ou Ciência Econômica deve basear-se tanto de conhecimentos gerais, como as leis econômicas deduzidas a priori, e em conhecimento específicos, como as manifestações contingente relativas à história, à sociologia, à antropologia prática, à cultura etc.

Desenvolvido por Vedrak  2018-2019