Livre mercado e equilíbrio neoclássico: uma crítica da teoria do emprego liberal

Introdução:

Não há maior discussão no campo político atualmente do que a efetividade das intervenções estatais ou das proposições do liberalismo e neoliberalismo. Por hora, voltemo-nos ao assunto que dele deriva diversos outros: a teoria do emprego. Pode-se dizer que o primeiro postulado de tal deu-se na obra[1] de Jean Baptiste Say (1765-1832), onde Say demonstra o que em seus tempos ficou conhecida como Lei dos Mercados, atualmente chamada de Lei de Say. Posteriormente diversos autores deram a ênfase necessária ao assunto, passando por nomes importantes como John Maynard Keynes (1883-1946), Friedrich Hayek (1899-1992), e atualmente muito desenvolvida por economistas pós-keynesianos em geral.

Trataremos aqui de uma crítica a teoria do emprego em uma sociedade de livre comércio.

A Teoria de Keynes e a Crítica à Lei de Say

Para Keynes, quando o empresário contrata certo volume de mão de obra, ele tem dois custos:

a) custos dos fatores de emprego(salários);

b) custo do uso do emprego, que é o custo pago aos outros empresários por seus produtos (tais como matéria-prima) e o custo de não deixar seu capital ocioso (tais como terra e maquinaria), que geram custos para serem mantidos.

A diante, Keynes afirma que a diferença entre o valor resultante da produção dos fatores de produção e os custos dos fatores junto dos custos do uso é o lucro, que Keynes prefere chamar de renda do empresário. Prossegue afirmando que, os custos dos fatores de emprego são junto com os lucros, a renda total.

Na visão de Keynes, como ele descreve posteriormente, na óptica do empresário é melhor chamar a renda total de produto deste nível de volume de emprego; sendo assim, o preço da oferta agregada (produto esperado) deve ser superior aos custos dos fatores de emprego para que o empregador considere viável empregar determinado volume de mão de obra. Os empresários, portanto, esforçam-se parar manter um nível de emprego que possa maximizar a diferença entre a receita e os custos dos fatores de emprego.

Na explicação de Keynes, temos que N é o volume de emprego, e que Z é o preço da oferta agregada, então temos que Z=y(N) (função da oferta agregada); enquanto temos que D é o produto esperado pelos empresários, e N ainda é o volume de emprego, então temos D=f(N) (função da demanda agregada). Caso D seja superior a Z, então os empresários têm incentivos a aumentar o volume de emprego e gerar mais custos, até que Z se iguale a D. Na intersecção da função demanda agregada e função oferta agregada, temos a demanda efetiva.

Keynes então critica a doutrina clássica que categoricamente resumida afirma que “a oferta cria sua própria demanda”, pois para esta proposição ser verdadeira, ela implica que f(N) e y(N) sempre serão iguais em quaisquer valores de N. Dessa forma, uma deslocação de Z(=y(N)) é sempre igual a uma deslocação de D(=f(N)). Isso pressupõe que D sempre assume o valor de Z independente do valor de N, onde não há um ponto de equilíbrio entre as funções.

Keynes diz que se isso fosse verdade, a concorrência entre os empresários levaria a um aumento do emprego que a oferta agregada não mais seria elástica e a produção não mais aumentaria por um aumento da demanda agregada.

Agora, nas próprias palavras de John Maynard Keynes:

“Assim, a lei de Say, segundo a qual o preço da demanda agregada da produção em conjunto é igual ao preço da sua oferta agregada para qualquer volume de produção, equivalente à proposição de que não há obstáculo para o pleno emprego.”

A crítica de Hayek à Teoria de Keynes

Houve uma crise que precedeu a crise de 1929 na Grã Bretanha, onde em 1925 esta instaurou novamente o padrão-ouro. Após a instauração do padrão-ouro, a moeda da Grã Bretanha continuou com a paridade da moeda anterior, que já estava muito desvalorizada. Hayek cita a carta[2] de David Ricardo (1772-1823) a um amigo escrita em 1821, onde o mesmo afirma que jamais aconselharia a um governo instaurar o padrão-ouro em uma moeda desvalorizada em 30%.

Tal feito causou uma grande deflação na Grã Bretanha, o que culminou em massivo desemprego. E fora nesse necessário que Keynes desenvolveu suas ideias contra a deflação. A valorização da libra esterlina tornou os salários reais dos assalariados britânicos substancialmente elevados em relação aos salários reais percebidos ao redor do mundo, tornando impossível para a Grã Bretanha concorrer com outros países. Tal problema foi analisado por Keynes. Para Hayek, as ideias de Keynes sobre a resolução do problema podem ser divididas em três partes: a) o entendimento da necessidade da queda dos salários reais; b) o entendimento da inviabilidade política de tal medida; c) o entendimento da nocividade de tal medida.

Hayek afirma que a teoria de Keynes é de alguma forma comprovada empiricamente, e que sua teoria [de Hayek] não pode-se dar a tal luxo científico. Então ele explica que a teoria de Keynes explica que o volume de emprego é dado de acordo com o ponto de equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada (como vimos anteriormente), e que embora tal tenha comprovação empírica, Hayek não considera como a melhor explicação, lançando sua própria teoria do emprego:

O desemprego, para Hayek, é causado por uma diferença entre a distribuição da mão de obra e dos outros meios de produção nos diversos setores da economia e localidades, e o modo como se distribuí a demanda pelos bens produzidos por estes fatores de produção. A diferença entre os dois é afetada pela irracionalidade causada pelas distorções no sistema de preços relativos e salários, sendo que o desemprego seria, pela visão de Hayek, resolvido pela estabilização do equilíbrio entre os preços relativos e os salários. Para ele, poderia-se chegar ao equilíbrio entre preços relativos e salários caso fosse estabelecido um livre comércio com uma quantidade estável de moeda; entretanto, Hayek afirma que é impossível de antemão saber qual a estrutura que possibilitaria tal equilíbrio. Como não pode-se saber qual a estrutura, não pode-se dizer qual a distorção do sistema de preços relativos e salários, e por conta disso não pode-se ter evidência estatística e mensurável de tais distorções.

Equilíbrio da oferta e demanda do emprego, em condições de livre mercado

Se há um conhecimento de senso comum entre os liberais e neoliberais, é a ideia que no livre mercado a redução dos custos de produção causados pelo Estado seria responsável pela criação de diversas vagas de emprego. O que de fato, é de primeira vista, real. Não tratarei no presente trabalho sobre uma teoria que vai contra esta visão[3], mas focar-me-ei em demonstrar como o ponto de equilíbrio pode ser especulado com a interação da oferta e demanda, através de um processo de silogismo.

Se há grande parte da população empregada, há um aumento dos salários; se há um aumento dos salários, há um aumento dos custos de produção; se há um aumento dos custos de produção, há uma queda no número de empresas empregando; se há uma queda no número de empresas empregando, há queda no número de pessoas empregadas; se há uma queda no número de pessoas empregadas, há uma queda nos salários; se há uma queda nos salários, há uma redução dos custos de produção; se há uma redução dos custos de produção, há um maior número de empresas empregando; se há um maior número de empresas empregando, há um maior número de pessoas empregadas.

Assim o ciclo continua, flutuando em volta de um suposto ponto de equilíbrio incalculável. Vale ressaltar a avaliação ceteris paribus para averiguar o problema. Diversos outros fatores influenciam neste raciocínio, mas seu resultado é aumentar a variação em torno do ponto de equilíbrio. De tal modo, pode-se inferir que em uma sociedade de livre comércio haveriam flutuações constantes no nível de emprego, e tais flutuações cada vez mais se estabilizariam perto de um ponto de equilíbrio que não garante o pleno emprego, nem o subemprego em massa. Vale ressaltar também que a demanda por emprego é rígida em relação ao preço[4], logo grandes alterações no salário não costumam causar grandes alterações da quantidade de emprego na economia. Esta última e comumente definida por diversos outros fatores. Logo, a mudança

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Bibliografia

1 Tratado de Economia Política.

2 Ricardo to Wheatley, 18 de setembro de 1821, reproduzido no livro The Works of David Ricardo, ed.

Piero Safra, vol. 9, Cambridge, University Press, 1952, p. 73.

3 Teoria do Equilíbrio em Desemprego.

4 Economia – Samuelson e Nordhaus.

economia, liberalismo

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