Adaptações de Quadrinhos estão, finalmente, se tornando plurais

Adaptar é uma prática comum desde a infância da sétima arte, aqueles filmes que aproveitam uma história já criada e geralmente bem-sucedida para trazê-los ao audiovisual. Os personagens mais famosos da denominada nona arte não fugiram das mãos dos cineastas, mesmo enquanto essa mídia ainda estava engatinhando, e, ainda que com hiatos de produção para produção (lá no começo), constituíram erros e acertos que formam a infraestrutura das grandes produções que vemos atualmente.

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Superman (1948) Columbia Pictures – Seriado baseado no personagem foi exibido em salas de cinema

Não são necessárias muitas palavras para resumir o Século XX no que se diz respeito ao assunto deste artigo: DC Comics dominava com seus maiores pilares sendo adaptados repetidamente (Superman e Batman, na verdade), enquanto a Marvel, sua rival histórica, não conseguia emplacar em outras mídias.

Após as vendas de direitos cinematográficos de vários personagens para estúdios diferentes (como Sony, FOX e Universal), os longas com personagens da Marvel conseguiram virar o jogo juntamente com a virada do milênio. Já no meio do ano 2000, Bryan Singer trazia aos cinemas o primeiro filme com reconhecimento dos fãs de alguma franquia da editora. Enquanto a FOX iniciava seu sucesso com os mutantes, a Sony, tendo adquirido o “universo do homem-aranha”, lançou em 2002 seu primeiro filme do teioso; Em 2003 foi a vez da Universal trazer o Hulk, com os anos seguintes quase sempre trazendo alguma produção das propriedades adquiridas. A Warner, detentora dos direitos cinematográficos da DC, apostou na primeira década do milênio em um filme do Superman, que falhou com o público, e dois do Batman, por Christopher Nolan, que ditaram as escolhas da produtora pelo que viria a seguir (além de adaptações de histórias isoladas como V de Vingança e Constantine em 2005, e Watchmen em 2009).

Foi em 2008 que a situação começou a ficar interessante. Neste ano, um estúdio próprio da Marvel lança o primeiro filme de uma tentativa arriscada, distribuído pela Paramount, chega aos cinemas o primeiro filme do Homem de Ferro, praticamente três meses antes do lançamento do segundo filme da franquia do Batman de Nolan. Com um planejamento invejável nas mãos de Kevin Feige, o Universo Cinematográfico da Marvel cresceu com histórias que não se ligavam apenas em história, mas também em tom.

Após o fracasso de um Lanterna Verde e o fim do sucesso com o Batman, a Warner lança mais um filme do Superman. Dessa vez por Zack Snyder, uma versão que beira a melancolia e com um roteiro recheado de questões filosóficas de auto-questionamento para aquele que viria a ser o Homem de Aço, repetindo o padrão visual sombrio de Nolan que definiu a característica visual do Universo DC nos cinemas, enquanto a Marvel esbanjava luz e roteiros mais simples e que, no final, divertia mais o público.

A falta de boas críticas na nova leva de filmes da DC levantou a curiosidade dos fãs sobre o que os profissionais considerariam bom. Julgando como injustas as baixas avaliações dos dois longas mais “pesados” lançados em 2013 e 2016, os fãs acusaram a crítica de estar avaliando com má fé os longas da detentora da Liga da Justiça por não apresentarem o que foi chamado de fórmula Marvel (algo como: filmes de super-heróis coloridos e descompromissados com o roteiro, além da presença gritante de ‘piadinhas’ muitas vezes mal inseridas”. ), que, numa observação mais superficial, define o estilo da Marvel e não é uma característica que a empresa tenha interesse em deixar de lado. A DC, por outro lado, buscou maneiras de ser igualmente reconhecida mas desistiu de “ser como a Marvel” após o fracasso de Liga da Justiça — sendo até então a decisão mais inteligente da empresa.

E então, “Por que a indústria de filmes que adaptam histórias em quadrinhos se tornou plural?” — simples: com os estúdios, não apenas a Warner mas também a FOX (que atiçou produções de franquias menores e mais violentas de outras publishers após Deadpool), reconhecendo que não conseguem atingir a mesma situação que a Marvel Studios apenas começaram a fazer filmes com estilos e tons próprios. Deixou-se de lado a absurda vontade de ser a Marvel, e o exemplo se amplia a cada dia, com estúdios anunciando filmes variados de personagens que permitem gêneros variados, a comédia romântica, o terror, o suspense, quase tudo, claro, com a ação. A própria Marvel abre (em uma faixa muito estreita mesmo) a liberdade criativa à alguns diretores, que nos faz presenciar filmes que seguem um mesmo padrão mas aplicam estilos de outros gêneros.

Esse novo estágio dos filmes do sub-gênero super-heroico alegra pois cria a visão de que a monotonia de filme para filme não seja alcançada tão cedo e, claro, dá oportunidade para que personagens destoantes do “padrãozinho” do herói clássico, que consegue ter facilmente uma adaptação, consigam também, porque, finalmente, a competição entre as produtoras fundamentou a capacidade de filmes adaptarem os personagens como eles são. A nós, fãs, mais opções. Ao público geral, o conhecimento de seres fantásticos que só se fazem presentes na memória de quem faz parte do nicho.

 

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